Recentemente fui convidada a participar de uma brincadeira dessas de Facebook. Como não uso muito meu perfil e a proposta era temática resolvi postar em minha página profissional – confesso que tentando manter as atividades por lá também.  

A ideia era apresentar sete trabalhos de artes visuais/plásticas, uma por dia,  sem qualquer explicação ou resenha, apenas com título e autoria, assim o fiz. 

Porém, escolher esses sete trabalhos, entre tantos possíveis me fez pensar o quanto eles ajudam na compreensão e influenciam meu próprio trabalho. Como a ideia aqui é apresentar um pouco das minhas referências e processo criativo, aproveito para deixá-los catalogados com alguns detalhes a mais:

  1. Bicho ‘Em Si’, 1962 – Lygia Clark

A obra completa da Lygia Clark, um dos principais nomes da arte brasileira da segunda metade do século XX, é uma referência, principalmente para pensarmos o papel do espectador na formulação de uma experiência artística – que até o momento se dava mais por um contemplação passiva do que por uma atividade participativa. A série Bichos caracteriza essa transição de um objeto disposto no espaço para propostas de experiências sensoriais mais amplas. Suas obras são sempre um convite a uma redescoberta subjetiva.  

  1. Ema (Nude on a Staircase), 1966. Two Candles, 1982. Candle, 1983 Gerhard Richter 

Gerhard richter é um importante pintor alemão e seu trabalho apresenta um certo romantismo, responsável por revigorar a pintura na segunda metade do século XX com um caráter muito autêntico. Todos os seus trabalho possuem uma forte relação com a fotografia e com a natureza. Havia escolhido Ema, por ser um trabalho bastante icônico do início da sua carreira. No entanto, a imagem foi censurada pelo facebook e substitui por Two candles, que também caracteriza muito diversas questões de seu trabalho, ainda uma pintura figurativa, mas bastante sóbria e minimalista. Uma curiosidade é que em 1988 uma de suas pinturas dessa fase (Candle, 1983) foi usada para ilustrar a capa do álbum Daydream nation, da banda norte americana Sonic Youth. 

  1. “Untitled”, 1991 – Felix Gonzalez-Torres

Felix Gonzales-Torres foi um artista cubano que trabalhou principalmente com instalações, intervenções e objetos, em grande parte minimalistas e efêmeros. Praticamente todos seus trabalhos são denominados “sem título”. Este, a fotografia de uma cama desarrumada, esteve estampada como anúncio em 25 pontos espalhados pela cidade de Nova Iorque. O artista sempre trouxe para seus trabalhos questões pessoais, discutindo sexo, gênero, preconceito, amor e morte através de representações simbólicas bastante sutis. Esse trabalho foi dedicado ao seu namorado, falecido devido a complicações da AIDS em uma época que as mortes causadas pelo vírus atingiam o ápice.

  1. Babel, 2001 –  Cildo Meireles

Cildo Meireles é um artista brasileiro reconhecido internacionalmente por criar objetos e instalações que levam o observador, por meio de alegorias perfeitamente construídas,  a uma experiência sensorial completa. Em Babel, uma torre de rádios empilhados, cada um sintonizado em uma estação, remetem à famosa parábola das dificuldades de uma construção social de bases sólidas, mediada pela comunicação entre os indivíduos que a constituem.

  1. When Faith Moves Mountains, 2002 – Francis Alÿs

A obra de Francis Alÿs, artista ungaro que vive e trabalha no México, é formada por ações executadas ou propostas pelo artista e se desdobram principalmente em vídeos, mas também em desenhos, pinturas e objetos, geralmente apresentando críticas políticas e socioeconomicas. Quando a fé move montanhas, é um vídeo de uma ação simbólica proposta pelo artista em Lima, Peru, após convocar 500 pessoas para mover 10cm de uma duna, mobilizando-as a cavar em sincronia. 

  1. The Weather Project, 2003 – Olafur Eliasson

Trabalhando também com experiências imersivas, as obras de Olafur Eliasson articulam questões científicas e filosóficas em instalações de grandes proporções, estando muitas vezes diretamente relacionadas à arquitetura.  The Weather project (Projeto meteorológico) trata-se de uma instalação icônica, realizada na Tate Modern – Londres, onde uma interferência no espaço projeta uma iluminação que remete ao sol escaldante em uma paisagem desértica. Os fenômenos naturais, são elementos fundamentais em sua investigação. Muitas de suas instalações trazem reflexos, sombras, inversões de imagem e mudanças de cores, evidenciando o modo como percebemos o ambiente ao nosso redor. 

  1. A dúvida, 2004 – Hélio Fervenza

Hélio Fervenza é um artista, professor e pesquisador brasileiro e trabalha principalmente com elementos gráficos e objetos criando interferências pontuais no espaço expositivo. A dúvida é um trabalho de intervenção realizada na FotoGaleria em Porto Alegre, no período de encerramento definitivo das atividades desse espaço. Composta por uma imagem da fachada da galeria acompanhada de uma plotagem com a frase “O que os olhos não vêem, o coração não sente?”  que ocupou toda a dimensão do espaço criando uma barreira na entrada do local. Um trabalho que utiliza do texto e da imagem para, paradoxalmente, pensar sua invisibilidade. 

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Não segui nenhuma ideia premeditada na escolha dessas obras, apenas procurei pensar numa diversidade de propostas, meios e linguagens que me impactam. Obviamente existem muitas outras obras que eu admiro, optei por um recorte temporal de trabalhos bastante recentes (considerando toda a história da arte ficaria ainda mais difícil).  Também é nítido que cada trabalho aqui colocado é muito mais complexo do que pude descrever em um parágrafo, trago algumas curiosidades para  te convidar a conhecê-los mais profundamente e espero que lhe impactem tanto quanto.